O primeiro Marketplace de Exames do Brasil
A nova era do emagrecimento: por que tratar a obesidade deixou de ser tarefa de um só profissional
Avanço de medicamentos como semaglutida e tirzepatida, novas diretrizes médicas e plataformas digitais reconfiguram o mercado brasileiro de emagrecimento — e colocam o acompanhamento multidisciplinar no centro da discussão
Saúde Concierge
9/5/202617 min read
Durante décadas, a receita para emagrecer no Brasil cabia em uma frase: comer menos, mover-se mais. Quem procurava ajuda profissional geralmente batia a uma porta só — a do nutricionista, a do educador físico ou, em casos mais graves, a do cirurgião bariátrico. O restante do caminho costumava ser percorrido sozinho, por tentativa e erro.
Esse modelo está sendo posto à prova. De um lado, o avanço de medicamentos capazes de produzir perdas de peso expressivas mudou a percepção pública sobre o que é tecnicamente possível. De outro, um conjunto cada vez mais robusto de evidências científicas mostra que resultado duradouro raramente depende de uma única intervenção — seja ela um medicamento, uma dieta ou uma cirurgia. Diretrizes médicas recentes, assinadas por sociedades como a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), a Sociedade Brasileira de Diabetes e a Sociedade Brasileira de Cardiologia, passaram a recomendar explicitamente equipes multiprofissionais — nutricionista, educador físico, psicólogo e médico atuando de forma coordenada — como parte do tratamento, e não como um complemento opcional.
É nesse contexto que surge uma nova geração de plataformas digitais de emagrecimento, que tentam reunir em uma única jornada etapas que antes eram buscadas separadamente: triagem inicial, avaliação médica, acompanhamento nutricional, suporte psicológico e monitoramento contínuo. O MEDY Now, plataforma de acompanhamento voltada ao emagrecimento, é um exemplo desse movimento — não o único, nem necessariamente o mais representativo, mas um retrato de para onde o mercado parece caminhar.
Uma doença, não apenas uma questão de peso na balança
A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a obesidade como uma doença crônica em si mesma, e não apenas como um fator estético ou um efeito colateral de maus hábitos. Segundo a agência, em 2022 cerca de 2,5 bilhões de adultos no mundo tinham excesso de peso, dos quais 890 milhões — 16% da população adulta global — viviam com obesidade. A prevalência mundial da obesidade mais que dobrou entre adultos desde 1990 e quadruplicou entre adolescentes.
No Brasil, o retrato é semelhante. Segundo o Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), do Ministério da Saúde, a proporção de adultos com excesso de peso nas capitais brasileiras saltou de 42,6%, em 2006, para 62,6%, em 2024 — ou seja, quase dois em cada três brasileiros adultos hoje estão acima do peso considerado saudável. No mesmo período, a obesidade propriamente dita passou de 11,8% para 25,7% da população adulta, mais que dobrando em menos de duas décadas. O diagnóstico autorreferido de diabetes acompanhou essa curva, subindo de 5,5% para 12,9%, enquanto a hipertensão arterial avançou de 22,6% para 29,7% — hoje atingindo quase um terço dos adultos brasileiros.
Esses números não são apenas estatística. Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, doenças associadas ao excesso de peso respondem por cerca de 72% dos óbitos no país, e quatro das seis doenças que mais matam brasileiros — AVC, infarto do miocárdio, diabetes e hipertensão — têm relação direta com o excesso de peso corporal. A obesidade também é reconhecida como fator de risco relevante para esteatose hepática, apneia do sono, problemas articulares degenerativos e alguns tipos de câncer, além de impactos na autoestima e na qualidade de vida. É essa dimensão clínica — e não estética — que tem levado sociedades médicas a tratar o excesso de peso como uma prioridade de saúde pública, e não como uma questão de disciplina individual.
O mercado das "canetas emagrecedoras" muda de escala
Se a obesidade sempre foi um problema de saúde pública, o que mudou recentemente foi a disponibilidade de ferramentas farmacológicas mais eficazes para tratá-la. Medicamentos baseados no mecanismo de agonismo do receptor de GLP-1 — hormônio que atua na regulação do apetite e da saciedade —, como a semaglutida, e agonistas duplos GLP-1/GIP, como a tirzepatida, mostraram em estudos clínicos perdas de peso médias que variam de cerca de 10% a mais de 20% do peso corporal, dependendo da molécula, da dose e do perfil do paciente.
Esse desempenho clínico se traduziu em um boom comercial. Segundo relatório do banco UBS BB, o mercado formal brasileiro de medicamentos injetáveis para emagrecimento — as chamadas "canetas emagrecedoras" — deve saltar de R$ 11 bilhões em 2025 para R$ 20 bilhões em 2026, impulsionado pela perda da exclusividade de patente da semaglutida no Brasil em março de 2026, decisão que abriu caminho para versões genéricas mais baratas. Um levantamento da consultoria Somma apontou que, em doze meses até abril de 2026, o mercado formal já somava R$ 14,6 bilhões, alta de 110% em relação ao período anterior. A tirzepatida, comercializada como Mounjaro, respondia por 57% das vendas de GLP-1 no quarto trimestre de 2025, à frente da semaglutida, com 43% — e a fabricante estima que o medicamento já tenha impactado quase 3 milhões de pacientes brasileiros.
Ainda assim, a penetração desses tratamentos segue relativamente baixa: estimativas do UBS BB sugerem que o consumo atual no país equivale a cerca de 1,1% dos adultos com sobrepeso e 2,5% dos adultos com obesidade — sinal de que o acesso, hoje concentrado nas classes A e B, tende a se ampliar nos próximos anos. Reportagens no radar do setor também não separam mercado formal do informal: segundo o Itaú BBA, o comércio paralelo de canetas emagrecedoras — via farmácias de manipulação e produtos importados irregularmente do Paraguai — pode ter movimentado cerca de R$ 12,5 bilhões em 2025, com projeção de chegar a R$ 19 bilhões em 2026, um volume que os analistas classificam como maior que o de vendas formais de alguns dos principais produtos da categoria.
Esse crescimento, no entanto, não deve ser lido como sinônimo de solução definitiva. É justamente a magnitude desse mercado — e sua migração para fora dos canais regulados — que torna urgente a discussão sobre acompanhamento profissional responsável.
A tentação do atalho: por que o emagrecimento rápido tem um preço
A popularização dos medicamentos GLP-1 nas redes sociais, impulsionada por relatos de celebridades e influenciadores, criou um fenômeno que médicos e reguladores observam com preocupação: a busca por resultados rápidos, muitas vezes desconectada de qualquer avaliação clínica. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tem reforçado a fiscalização diante desse cenário. Segundo a agência, somente no segundo semestre de 2025 foram importados cerca de 130 quilos de insumos farmacêuticos ativos de GLP-1 para manipulação — volume suficiente para produzir até 25 milhões de doses, considerado pela própria Anvisa incompatível com a demanda legítima do país. Em 2026, a agência já havia realizado 11 inspeções em farmácias de manipulação e importadoras, resultando em oito interdições por irregularidades técnicas, além de publicar ao menos dez medidas de proibição de produtos irregulares contendo semaglutida, tirzepatida ou liraglutida.
Os riscos não são apenas regulatórios. Em fevereiro de 2026, a Anvisa emitiu alerta específico sobre risco de pancreatite associado ao uso inadequado dessas substâncias, e entre 2018 e março de 2026 foram registradas 2.965 notificações de eventos adversos relacionados a esses medicamentos, concentradas principalmente em 2025 e associadas majoritariamente à semaglutida. Produtos adquiridos fora de farmácias regularizadas — por redes sociais, grupos de mensagem ou importação irregular — não oferecem qualquer garantia sobre dosagem, procedência, condições de transporte ou armazenamento, fatores especialmente críticos para medicamentos injetáveis que exigem cadeia de frio controlada.
Esse cenário ilustra um problema mais amplo do mercado de emagrecimento: a banalização de um tratamento clínico complexo, tratado por parte do público como um produto de consumo qualquer. Dietas extremas, uso de medicamentos sem prescrição, abandono precoce do tratamento e expectativas pouco realistas sobre a velocidade dos resultados seguem sendo riscos concretos — riscos que o acompanhamento profissional, justamente, busca mitigar.
Remédio não é ponto final: o que a ciência diz sobre o reganho de peso
Um dos argumentos mais recorrentes entre especialistas para justificar a necessidade de acompanhamento multidisciplinar — e não apenas farmacológico — está nos próprios dados de longo prazo sobre os medicamentos GLP-1. Uma revisão sistemática publicada em 2025, que analisou os estudos STEP 1 (extensão), STEP 4 e SURMOUNT-4, mostrou que, cerca de um ano após a interrupção do tratamento com semaglutida ou tirzepatida, os pacientes recuperaram, em média, entre 65% e 67% do peso perdido — junto com boa parte dos benefícios cardiometabólicos alcançados durante o uso. Outros levantamentos apontam que aproximadamente metade das pessoas com obesidade interrompe o uso desses medicamentos em até doze meses, seja por efeitos colaterais, custo ou dificuldade de manter o tratamento a longo prazo.
Esses dados sustentam um consenso cada vez mais forte na literatura médica: a obesidade deve ser tratada como uma condição crônica, e não como um problema pontual a ser "resolvido" por um único ciclo de tratamento. Isso significa que a construção de hábitos alimentares sustentáveis, o acompanhamento psicológico do comportamento alimentar e a manutenção de massa muscular por meio de atividade física — frentes que não desaparecem com a interrupção de um medicamento — tendem a determinar se o resultado alcançado se mantém no tempo. Em outras palavras: o medicamento pode acelerar a perda de peso, mas raramente sozinho garante que ela seja duradoura.
Cuidado em equipe: o que dizem as novas diretrizes médicas
Essa compreensão já está formalizada em diretrizes clínicas brasileiras. Uma diretriz baseada em evidências publicada em 2025, assinada em conjunto pela Abeso, pela Sociedade Brasileira de Diabetes, pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, pela Sociedade Brasileira de Cardiologia e pela Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade — num esforço que reuniu 20 especialistas e resultou em 25 recomendações formais —, estabelece que a modificação do estilo de vida no tratamento da obesidade deve ser conduzida por equipe multiprofissional, composta por nutricionista, educador físico e psicólogo, em encontros individuais ou em grupo. É significativo, porém, que a mesma diretriz reforce que essa abordagem comportamental não deve atrasar o início da terapia farmacológica quando ela estiver clinicamente indicada — ou seja, medicamento e acompanhamento multiprofissional não competem entre si, mas se complementam.
A diretriz de tratamento farmacológico da Abeso, atualizada em 2026, caminha na mesma direção ao reforçar que a obesidade é uma condição multifatorial — influenciada por fatores genéticos, hormonais, ambientais, comportamentais e socioeconômicos —, e não resultado exclusivo de escolhas individuais. Essa compreensão tem, segundo a própria entidade, o objetivo de afastar abordagens simplistas e estigmatizantes que historicamente prejudicaram a adesão ao tratamento. Na prática, isso empurra o mercado — tanto clínicas físicas quanto plataformas digitais — para modelos de cuidado que integrem diferentes especialidades em vez de tratar cada uma isoladamente.
A saúde também migrou para a tela
Paralelamente à mudança farmacológica e clínica, a saúde brasileira passou por uma transformação digital acelerada. Segundo a consultoria IMARC Group, o mercado de saúde digital no Brasil foi avaliado em US$ 12,4 bilhões em 2025, com projeção de alcançar US$ 44 bilhões até 2034 — crescimento anual composto estimado em 15,3%. Dentro desse universo, o mercado de telemedicina especificamente foi avaliado em US$ 2,4 bilhões em 2025, com expectativa de chegar a US$ 12,9 bilhões até 2034. O Brasil concentra hoje 64,8% de todo o capital investido em saúde digital na América Latina, à frente de México e Argentina, e abriga um ecossistema de mais de mil healthtechs ativas, crescendo a um ritmo médio próximo de 25% ao ano.
Especialidades como dermatologia, psicologia, psiquiatria, nutrição e clínica geral se adaptaram com relativa facilidade ao atendimento remoto — um movimento que ganhou força após a regulamentação definitiva da telemedicina pelo Conselho Federal de Medicina e que se consolidou como hábito de consumo em saúde, especialmente entre pacientes de regiões com acesso limitado a especialistas presenciais. Para o tratamento da obesidade, essa digitalização abriu espaço para modelos de acompanhamento remoto, triagem inicial por questionário, comunicação contínua entre paciente e equipe multiprofissional e monitoramento de evolução ao longo do tempo — recursos que, bem utilizados, podem ampliar o acesso a um cuidado antes restrito a grandes centros urbanos. É importante frisar, no entanto, que tecnologia amplia acesso e facilita acompanhamento, mas não substitui a avaliação clínica de um profissional habilitado nem a decisão médica sobre indicação, prescrição ou ajuste de tratamento.
Da fragmentação à jornada única: a nova geração de plataformas
É nesse cruzamento — entre a crescente evidência científica a favor do cuidado multidisciplinar e a maturidade da infraestrutura digital de saúde — que surge uma nova categoria de negócios no mercado brasileiro de emagrecimento: plataformas que tentam organizar, em uma jornada única, etapas que historicamente exigiam que o paciente procurasse cada profissional separadamente. Triagem inicial, avaliação médica, acompanhamento nutricional, suporte psicológico, solicitação de exames e monitoramento contínuo passam a ser oferecidos, ao menos na proposta comercial dessas empresas, como partes integradas de um mesmo programa, em vez de serviços fragmentados.
A atratividade desse modelo é compreensível: para um paciente que antes precisava agendar separadamente consulta com endocrinologista, nutricionista e psicólogo — muitas vezes com filas de espera distintas e sem comunicação entre os profissionais —, uma jornada estruturada promete menos fricção e mais continuidade de cuidado. Isso não significa, porém, que o modelo seja garantia de resultado. A integração de etapas resolve um problema de acesso e organização; não substitui a variável mais determinante de qualquer tratamento de obesidade, que é a adequação da conduta clínica ao caso individual de cada paciente.
Um retrato desse movimento
O MEDY Now se posiciona como um exemplo dessa transformação. Segundo a proposta institucional divulgada pela própria plataforma, trata-se de um programa de emagrecimento com acompanhamento médico, cuja jornada tem início por uma etapa de triagem — modelo que se assemelha ao de outras plataformas do setor, nas quais um questionário inicial busca reunir informações sobre histórico de saúde, hábitos e objetivos do paciente antes de qualquer indicação de conduta.
De acordo com a proposta do MEDY Now, a estrutura da jornada busca combinar acompanhamento médico com apoio nutricional, suporte psicológico e, quando clinicamente indicado, encaminhamento a avaliação endocrinológica e solicitação de exames complementares — elementos que, somados, formam a espinha dorsal do modelo de cuidado multidisciplinar que diretrizes médicas brasileiras têm defendido. A plataforma também estrutura seu acompanhamento com apoio de tecnologia, permitindo comunicação contínua entre paciente e equipe ao longo do tratamento — um recurso alinhado à digitalização mais ampla observada no setor de saúde brasileiro.
É importante fazer uma distinção que o próprio mercado de plataformas de emagrecimento tem procurado deixar clara: acompanhamento médico, prescrição eventual de medicamento e a aquisição desse medicamento em farmácia são etapas distintas, com responsabilidades distintas. O papel de uma plataforma como o MEDY Now, nesse modelo, está em estruturar a jornada de cuidado e conectar o paciente aos profissionais habilitados — não em substituir a avaliação clínica individualizada, tampouco em prometer resultado. Nenhuma plataforma de acompanhamento, por mais estruturada que seja sua proposta, pode garantir emagrecimento: a resposta ao tratamento varia de pessoa para pessoa, e a decisão sobre conduta — incluindo se um medicamento é ou não indicado — permanece sendo prerrogativa médica, caso a caso.
O peso da mente no tratamento
Entre os componentes desse cuidado integrado, o suporte psicológico ocupa um espaço que a literatura científica tem reforçado nos últimos anos. Estudos indicam que pessoas com obesidade apresentam risco significativamente maior de desenvolver depressão e ansiedade — uma meta-análise publicada no periódico JAMA Psychiatry associou a obesidade a um aumento de 55% no risco de depressão ao longo da vida, enquanto uma revisão mais recente, de 2025, apontou incremento de cerca de 30% no risco de transtornos de ansiedade. Um estudo brasileiro conduzido com adultos com sobrepeso ou obesidade, publicado pela Revista da Escola de Enfermagem da USP, identificou que sintomas de ansiedade e depressão frequentemente medeiam a relação entre má qualidade do sono e episódios de compulsão alimentar — evidenciando como diferentes dimensões da saúde mental se entrelaçam com o comportamento alimentar.
A relação entre alimentação e emoção é amplamente documentada: sentimentos como tédio, angústia, raiva, culpa e baixa autoestima frequentemente funcionam como gatilhos para episódios de compulsão alimentar, num padrão em que a comida passa a funcionar como uma forma de regulação emocional. Isso não significa que toda pessoa com obesidade tenha um transtorno alimentar — a maioria não tem —, mas ajuda a explicar por que abordagens puramente comportamentais ("coma menos") frequentemente fracassam sem que as dimensões emocionais do comportamento alimentar sejam também trabalhadas. Para parte significativa dos pacientes, o acompanhamento psicológico ao longo do processo de mudança de hábitos pode ser um componente relevante da adesão ao tratamento a longo prazo — ainda que a indicação específica dependa sempre de avaliação individual.
Por que o prato ainda importa
Diante do desempenho expressivo dos medicamentos GLP-1, é natural perguntar se o acompanhamento nutricional ainda faz sentido. A resposta, segundo especialistas, é afirmativa — e por razões que vão além da simples contagem calórica. O acompanhamento nutricional cumpre um papel importante na adequação da ingestão de nutrientes durante o tratamento, na preservação de massa muscular (um dos efeitos colaterais possíveis da perda de peso rápida é justamente a perda de massa magra, não apenas de gordura), na construção de hábitos alimentares sustentáveis e na manutenção dos resultados após eventual interrupção do uso de medicamentos — momento em que, como mostram os dados de reganho de peso citados anteriormente, o corpo tende a reativar mecanismos de fome e retenção energética. A individualização da alimentação, considerando rotina, preferências, restrições e comorbidades de cada paciente, segue sendo um fator que nenhuma classe de medicamento substitui.
O médico como fio condutor do tratamento
No centro de qualquer estratégia terapêutica para obesidade, a avaliação médica continua sendo o elemento que integra os demais. É o médico quem avalia histórico clínico, medicamentos em uso, doenças associadas, resultados de exames, contraindicações e efeitos adversos — e quem decide, com base nesse conjunto de informações, se um tratamento farmacológico é apropriado, qual medicamento e dose fazem sentido para aquele caso específico, e como a conduta deve ser ajustada ao longo do tempo. Medicamentos para emagrecimento não são isentos de riscos nem adequados a todos os perfis de paciente — e por isso as diretrizes médicas brasileiras são unânimes ao afirmar que seu uso exige avaliação profissional prévia e contínua, nunca decisão do próprio paciente ou indicação por terceiros sem formação clínica.
Um ecossistema econômico em formação
A dimensão sanitária desse movimento tem, também, uma contrapartida econômica considerável. Somado o mercado formal de medicamentos, as versões genéricas que devem se multiplicar após o fim da patente da semaglutida e o comércio paralelo, analistas do Itaú BBA estimam que o mercado endereçável de tratamentos para emagrecimento no Brasil pode chegar a R$ 61 bilhões. Paralelamente, o setor de healthtechs brasileiro — que inclui clínicas especializadas, plataformas digitais de acompanhamento, laboratórios e empresas de tecnologia em saúde — segue atraindo investimento relevante: dados da Liga Ventures apontam 43 rodadas de investimento em healthtechs brasileiras em 2025, ante 41 em 2024, com nutrição entre os segmentos que mais atraíram capital, atrás apenas da gestão financeira e contábil em saúde.
Esse crescimento não se limita às farmacêuticas. Clínicas especializadas em obesidade, consultórios de nutrição e psicologia voltados ao emagrecimento, laboratórios de exames e plataformas de telemedicina compõem um ecossistema que cresce junto com a demanda — reflexo direto de uma população brasileira em que mais da metade dos adultos está acima do peso considerado saudável, segundo os próprios dados do Vigitel.
Entre informação e desinformação: o novo consumidor de saúde
O paciente que busca emagrecer hoje é, em muitos sentidos, mais informado do que há uma década — mas também mais exposto a um volume maior de desinformação. Redes sociais amplificam tanto conteúdo baseado em evidência quanto promessas exageradas, protocolos sem respaldo científico, publicidade não regulamentada de medicamentos e depoimentos de influenciadores e celebridades que naturalizam o uso de substâncias potentes sem qualquer menção a acompanhamento médico. Esse ambiente cria um desafio real para qualquer negócio de saúde que queira operar de forma responsável: como ser acessível e usar a linguagem das redes sociais sem, ao mesmo tempo, alimentar expectativas irreais ou incentivar o uso inadequado de medicamentos. Plataformas e clínicas que se posicionam nesse mercado — MEDY Now incluído — têm, nesse sentido, um desafio editorial e clínico simultâneo: equilibrar acessibilidade e tecnologia com segurança clínica e comunicação responsável.
Inteligência artificial: apoio, não substituto
A inteligência artificial começa a aparecer também no acompanhamento de pacientes em tratamento de obesidade, com aplicações que vão da organização de informações de saúde e comunicação com o paciente até lembretes de rotina, suporte educativo e triagem inicial de questionários. Esses recursos podem tornar o acompanhamento mais ágil e contínuo, especialmente em modelos digitais que atendem grande volume de pacientes. É fundamental, porém, que essa tecnologia seja compreendida pelo que é: uma ferramenta de suporte operacional e informacional, não um substituto para diagnóstico, prescrição ou decisão clínica — atribuições que permanecem, por definição regulatória e ética, exclusivas de profissionais de saúde habilitados.
Riscos que exigem responsabilidade
Vale reunir, ao final desse panorama, os principais riscos que caracterizam o momento atual do mercado de emagrecimento no Brasil: automedicação com substâncias potentes; aquisição de produtos sem procedência verificada, incluindo canetas emagrecedoras falsificadas ou contrabandeadas; dosagens incorretas por falta de supervisão médica; promessas de resultados rápidos e garantidos, que não correspondem à realidade clínica de um tratamento individualizado; interrupção abrupta do tratamento sem plano de manutenção; e abandono do acompanhamento profissional assim que a meta de peso inicial é alcançada — justamente o momento em que, como mostram os estudos de reganho de peso, o suporte continuado costuma ser mais necessário. A orientação de consenso entre sociedades médicas e órgãos reguladores é direta: qualquer tratamento para emagrecimento, farmacológico ou não, deve ser conduzido com acompanhamento de profissionais habilitados e por meio de canais regulamentados — nunca por conta própria.
O futuro do tratamento da obesidade
A principal mudança em curso no tratamento da obesidade no Brasil não está apenas nos medicamentos — embora eles sejam, sem dúvida, o elemento mais visível dessa transformação. A verdadeira virada está na forma como o cuidado está sendo organizado: de intervenções isoladas e sequenciais para uma jornada mais integrada, na qual medicina, nutrição, psicologia, exames, tecnologia e acompanhamento contínuo passam a fazer parte de uma mesma estratégia, pensada para cada paciente individualmente.
Plataformas como o MEDY Now representam uma tentativa — entre várias que surgem nesse mercado em expansão — de organizar essa jornada em um ecossistema único, reduzindo a fragmentação que historicamente dificultou o acesso a cuidado multidisciplinar de qualidade. Se esses modelos vão de fato cumprir essa promessa em escala, e com a segurança clínica que o tratamento da obesidade exige, é algo que só o tempo — e a forma como cada empresa conduz sua operação — poderá confirmar.
O que já parece claro, à luz da evidência científica e das diretrizes médicas mais recentes, é que o tratamento da obesidade no Brasil está deixando de ser sinônimo de dieta restritiva ou de solução farmacológica isolada. Ele exige, cada vez mais, responsabilidade, acompanhamento profissional contínuo e expectativas realistas — princípios que, independentemente da plataforma ou do medicamento escolhido, seguem sendo o que efetivamente diferencia um tratamento seguro de um atalho arriscado.
Fontes consultadas
Vigitel Brasil (Ministério da Saúde), dados 2006–2024, divulgados em janeiro de 2026
Organização Mundial da Saúde (OMS) — Obesidad y sobrepeso, dados 2022–2025
Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM)
Diretriz Brasileira Baseada em Evidências para o Manejo da Obesidade e Prevenção de Doenças Cardiovasculares (Abeso, SBD, SBEM, SBC, ABS — 2025), publicada na Arquivos Brasileiros de Cardiologia/SciELO
Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade — Abeso (2026)
Relatório UBS BB sobre o mercado brasileiro de canetas emagrecedoras (dez. 2025)
Somma Investimentos — impacto das canetas emagrecedoras no mercado brasileiro (2026)
Itaú BBA, via Guia da Farmácia — mercado paralelo de canetas emagrecedoras (jun. 2026)
Exame — reportagem sobre o mercado de canetas emagrecedoras e Mounjaro (2026)
Agência Brasil / Agência Gov — fiscalização da Anvisa sobre canetas emagrecedoras manipuladas (2026)
The Conversation Brasil — comércio ilegal de canetas emagrecedoras (2026)
Revista DELOS — revisão sistemática sobre reganho de peso após interrupção de semaglutida e tirzepatida (2025)
CNN Brasil — reganho de peso após interrupção de canetas emagrecedoras (2026)
IMARC Group, via ISI Markets — mercado de saúde digital e telemedicina no Brasil
Distrito / ABStartups — panorama de healthtechs no Brasil (2026)
Liga Ventures — investimentos em healthtechs brasileiras (2026)
Revista da Escola de Enfermagem da USP — ansiedade, qualidade do sono e compulsão alimentar em adultos com sobrepeso ou obesidade (SciELO)
JAMA Psychiatry (2019) e meta-análise (2025), via Faça Medicina/Afya e Drogaria Araujo — obesidade e risco de depressão/ansiedade
RBONE — Revista Brasileira de Obesidade, Nutrição e Emagrecimento — gatilhos emocionais da compulsão alimentar
Informações institucionais divulgadas pela própria plataforma MEDY Now
Nota: este texto tem caráter jornalístico e informativo. Não substitui avaliação médica individualizada. Decisões sobre tratamento da obesidade, incluindo uso de medicamentos, devem ser tomadas exclusivamente com acompanhamento de profissionais de saúde habilitados.
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